
O Caibalion e os 7 princípios herméticos, explicados
O Caibalion: quem o escreveu em 1908, a lenda de Hermes Trismegisto, os 7 princípios herméticos explicados e o que a física diz da «vibração».
Cultura e ideias: de onde vem uma crença e o que a ciência diz sobre ela. Não é aconselhamento de saúde.
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O Caibalion é um livro publicado em Chicago, em 1908, que apresenta sete «princípios herméticos» como a chave de uma sabedoria do antigo Egito e da Grécia. Assinado por «Três Iniciados», é hoje atribuído, com boa probabilidade, ao escritor norte-americano William Walker Atkinson. Em inglês chama-se The Kybalion; em Portugal procura-se sobretudo pela grafia «Caibalion».
O que é o Caibalion?
É um pequeno tratado com o subtítulo «Um estudo da filosofia hermética do antigo Egito e da Grécia», publicado pela The Yogi Publication Society, de Chicago. O livro apresenta-se como a explicação de ensinamentos antigos, mas o nome «Kybalion» não tem significado conhecido em grego: terá sido inventado para soar antigo.

Créditos
Foto: Três Iniciados, «The Kybalion» (1908), domínio público
Quem escreveu o Caibalion?
A autoria nunca foi assinada, mas vários estudiosos atribuem-no a William Walker Atkinson (1862 a 1932), um pioneiro do Novo Pensamento. Atkinson escreveu em 1906 um livro sobre a «vibração do pensamento», contado no nosso guia sobre a «frequência vibracional». O investigador Nicholas E. Chapel conclui que o Caibalion está demasiado preso às ideias do Novo Pensamento do início do século XX para representar a tradição hermética antiga.
Hermes Trismegisto existiu?
Não como pessoa. Hermes Trismegisto («três vezes grande») é uma figura lendária que junta o deus grego Hermes e o deus egípcio Thoth. Os textos que lhe foram atribuídos, a chamada Hermetica, existem: são tratados em grego, escritos em grande parte entre cerca de 100 e 300 d.C., no Egito romano.
No Renascimento, quando Marsilio Ficino os traduziu para latim (a primeira edição saiu em 1471), julgava-se que eram mais antigos do que Moisés. Em 1614, o filólogo Isaac Casaubon mostrou, pelo vocabulário, que eram obras dos primeiros séculos da era cristã. O historiador Florian Ebeling resume: Hermes Trismegisto foi uma ficção, mas uma ficção fecunda. Os estudiosos ainda discutem quanto devem estes textos à cultura egípcia e quanto à grega.
Os 7 princípios herméticos explicados
1. Mentalismo
Para o livro, a realidade de fundo, a que chama «o Todo», é uma mente infinita, e o universo existe como criação mental dessa mente. Daí tira a ideia de que compreender a mente dá domínio sobre a matéria e a energia.
2. Correspondência
Há correspondência entre os planos físico, mental e espiritual: o que se passa num repete-se, à sua escala, nos outros. É o velho axioma «o que está em cima é como o que está em baixo», que aparece na Tábua de Esmeralda, um texto hermético conhecido em árabe desde o final do século VIII ou o início do IX.
3. Vibração
Tudo está em movimento. Para o livro, a matéria, a energia, a mente e o espírito diferem sobretudo pela rapidez da sua vibração, e quanto mais alta a vibração, mais alto o lugar na escala.
«Nada está parado; tudo se move; tudo vibra.» Três Iniciados, 1908 (tradução nossa)
4. Polaridade
Tudo tem dois polos, e os opostos são a mesma coisa em graus diferentes: o calor e o frio, a luz e a escuridão, o amor e o ódio. O livro ensina a mudar um estado mental deslizando ao longo dessa escala.
5. Ritmo
Tudo flui e reflui, como um pêndulo ou uma maré: nações, vidas, humores. O livro propõe aprender a «neutralizar» esse balanço para manter a firmeza interior.

Créditos
Foto: Manfred Schröter, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0, adaptada
6. Causa e Efeito
Nada acontece por acaso; o acaso é o nome que damos a uma lei que não conhecemos. O livro convida a deixar de ser peão das circunstâncias e a tornar-se causa.
7. Género
Há um princípio masculino e um feminino em tudo, em todos os planos. No plano físico manifesta-se como sexo; nos outros, como forças de criação. O próprio livro avisa que não fala de práticas sexuais. É uma visão de 1908, e lê-se melhor como imagem do que como teoria sobre homens e mulheres.
O Caibalion e a ciência: o que diz a física da «vibração»?
O livro afirma que a ciência moderna confirma o princípio da vibração, e em parte tem razão. Segundo o Instituto Nacional de Normas e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST), a temperatura de um objeto mede a energia média do movimento dos seus átomos, e mesmo no zero absoluto a física quântica prevê um movimento residual. Na matéria, nada está de facto parado.
O resto já não vem da física. Uma vibração, no sentido científico, repete-se com uma frequência que se mede em hertz; a mente e o espírito não têm uma frequência medida, e nada na física põe «vibrações mais altas» num lugar moral mais alto. Segundo Chapel, o princípio da vibração nem sequer vem da Hermetica: deriva da filosofia de David Hartley, um pensador inglês do século XVIII. O mentalismo e a correspondência têm raízes herméticas mais antigas.
Porque continua a ser lido?
É a nossa leitura, não um dado medido. O Caibalion é curto, arrumado em sete ideias fáceis de lembrar, e oferece uma imagem de ordem: tudo ligado, tudo com sentido, nada por acaso. Lido como filosofia e como peça da história do esoterismo moderno, continua a ser um livro curioso. Lido como ciência antiga do Egito, não resiste às datas.



